quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Primícias

Há muito tempo atrás numa terra distante... Um certo povo tinha o hábito de consagrar todos os seus primeiros frutos à Deus, seja na lavoura, no gado, nos negócios, geralmente coisas indispensáveis à manutenção de suas vidas, como também na família. Tudo o que eles obtinham em primeira mão não era para eles mesmos mas sim para Deus. Não era apenas um grupo da sociedade, era a nação inteira, isso era uma lei nacional. Já imaginou escrito na nossa constituição de 88: “Todas as primícias da união deverão ser consagradas ao Deus de nossos antepassados.”? Bizarro, não é? Pois (por incrível que pareça para a nossa sociedade contemporânea) para eles, bizarro seria uma nação que não tivesse por lei os preceitos e os ensinamentos do Senhor. Pois nesses ensinamentos era encontrada (e ainda é) uma sabedoria tão profunda e tão perscrutadora que até hoje nenhuma sabedoria humana poderia ser comparada (mas isso será assunto para outro diálogo). Mas as perguntas que não querem calar são: Tá, mas por que eles faziam isso? O que realmente significava isso? Eles faziam só porque alguém mandava? Perguntas, perguntas e mais perguntas... Já dizia o comercial do canal futura: Não são as respostas que movem o mundo, são as perguntas.

No entanto, antes de adentrarmos nos pormenores desta questão, permita-me lhe fazer as seguintes indagações: Imagine você recebendo uma notícia muito boa, seja a aprovação no vestibular, algo que você ganhou de grande valor para você, ou algo totalmente extraordinário que aconteceu em sua vida. Quem é a pessoa que você vai correndo para que ela seja a primeira pessoa a saber desse acontecimento tão espetacular em sua vida? Ou você fez algo de grande importância em sua vida, seja um quadro que você pintou, algum pensamento seu escrito, alguma fotografia ou algo que seja fruto de um talento que você possui, ou coisas afins.  Em quem você pensa: “Nossa, essa pessoa tem que ser a primeira a ver isso”? Pois bem, daí você tira que a ideia por detrás desta prática das primícias não está em tão desuso nos nossos dias. Esse povo via como forma de prestar homenagem, de honrar a Deus não dando apenas quaisquer frutos, mas dando os seus primeiros frutos, como forma de dizer: Senhor olha só minha primeira conquista, mas isso não será para mim e sim para o Senhor. O fato a ser considerado aqui não é o oferecimento de coisas materiais, mas sim a importância que Deus tinha na vida deles, mais ainda do que as suas próprias conquistas. Pois na cultura da época os animais, os frutos da lavoura tinham tanta importância para eles do que um galaxy, um ipad, um kinect ou até mesmo um C4 para nós hoje. Difícil de imaginar, né?

Falando nisso... E quanto a nós hoje em dia? Quem é a pessoa mais importante em nossas vidas? Não somente ao ponto de oferecermos as nossas primícias, mas também ao ponto de ser mais importante do que elas mesmas. Pois afinal das contas onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração (Mt 6.21). Parafraseando, só demonstramos claramente o nosso afeto naquilo que é realmente importante em nossas vidas. Deixe-me exemplificar da seguinte maneira. Quando éramos crianças que ganhávamos um presente que queríamos tanto, dificilmente outra coisa importava mais do que aquele presente. Todo o nosso afeto era dedicado àquele presente demonstrando o quão importante ele era para nós. E isso muitas vezes perdura até hoje quando adquirimos algo que é objeto de nosso desejo.  Dedicamos boa parte de nosso tempo ou da nossa atenção em torno disso. Seja algo material (eletrônicos, carros, dinheiro), ou uma prática (internet, jogos, curso, trabalho) ou uma pessoa (pais, filhos, amigos, namorados). Mas e onde fica Deus nesta história? Comece a se questionar sobre isso. O que tem sido mais importante do que Deus em minha vida? Procure ter o hábito frequente de examinar-se a si mesmo (pleonasmo literário) e veja se não tem alguma “primícia” do nosso século sendo mais importante do que Deus em sua vida e fazendo-lhe se afastar da fé (2 Co 13.5). É necessário salientar que essa “primícia” do nosso século muitas vezes difere do real significado apresentado no início do texto, pois grande parte das coisas que almejamos é totalmente dispensável à manutenção da nossa vida e boa parte uma mera futilidade.

Muitas ordens de grandeza mais importante do que buscar quaisquer primícias é buscar o Reino de Deus e Sua Justiça. É fazer dEle não somente o primeiro em sua vida mas também o seu universo.  Uma vez estando continuamente fazendo isso (eu disse continuamente) é que todas as coisas (indispensáveis à sua vida e não mera futilidade) serão acrescentadas em sua vida (Mt 6.33).

“Que ao amanhecer do sol, ao acordar, Ele seja o seu primeiro pensamento.”