sábado, 3 de março de 2012

Verdades


Se existe algo que não gostamos de ouvir é exatamente isso, “verdades”, já parou pra observar? E por mais que rejeitemos essa ideia sabemos, no íntimo do nosso ser, que é a mais pura verdade. Muitas vezes somos tão hipócritas em dizer que gostamos de sinceridade e da verdade, que desejamos que as pessoas sejam sinceras, mas isso só nos interessa quando o que as pessoas tem a nos dizer é algo que serve para ufanar os nossos corações, seja por meio de elogios ou palavras que demonstrem o quanto somos importantes e necessários, o quanto somos amados. Não importam quão fúteis e tolas sejam essas palavras, mas que elas venham para satisfazer o nosso ego. Mas e quando a verdade é algo que produz tristeza e luto em nossos corações? Quando ela revela a nossa natureza, quem nós somos de fato, nossos defeitos, a começar por nosso orgulho. Pois, o maior empecilho em aceitar a verdade é o próprio orgulho. O orgulho e a vergonha nos aprisionam fazendo-nos viver em densas trevas, não permitindo que vivamos iluminados à luz da verdade.

É como se você estivesse num quarto escuro e devido a essa escuridão você pudesse fazer o que lhe der vontade, pois afinal de contas, ninguém poderá ver o que você está fazendo, você sente uma espécie de pseudo-liberdade. Mas de repente, alguém liga o interruptor da lâmpada fazendo com que instantaneamente tudo o que você está fazendo escondido pelas trevas venha à tona sendo revelado pela luz da verdade. E neste momento você se sente tão envergonhado que você anseia voltar às trevas, afim de que possa se esconder. Penso que tenha sido esse o sentimento de nossos primeiros pais ao serem defrontados diante da revelação de suas desobediências (Gn 3.8). Nessa situação, a ideia de se esconder aparenta ser mais atraente do que a ideia de reconhecer o ato que o envergonha e mudar de atitude. Outras vezes, no entanto, acabamos por assumir uma postura de antipatia com as pessoas que nos admoestam com a verdade e por vezes chegamos ao ponto de sermos até grossos com tais pessoas. Você acha familiares esses pensamentos: “O que ele tem a ver com a minha vida?”, “Quem ele pensa que é pra me julgar?”; “Ele devia cuidar de sua vida que da minha cuido eu.”? E nem nos damos conta que acabamos fugindo de um grande ensinamento bíblico que diz que é melhor ouvir a repreensão do sábio do que a canção (no sentido de aprovação, aplausos) dos tolos (Ec 7.5).

Já imaginou o que teria acontecido se nossos primeiros pais tivessem tido uma atitude diferente? Agora, diante deste pensamento que você está tendo, que provavelmente seja um: “Nossa, aí as coisas seriam diferentes. Seriam bem melhores!”, imagine o que pode acontecer em sua vida se você tomar uma atitude que não seja semelhante às deles. Davi, por exemplo, quando foi confrontado por Natã (2 Sm 12.9) diante do seu grave crime (2 Sm 11.3-17) não teve a atitude de tentar esconder o que fez e muito menos de deixar o seu orgulho aflorar e mandar executar Natã (algo que outros reis fizeram quando confrontados por profetas). Muito pelo contrário, não somente reconheceu o seu crime (2 Sm 12.13) mas teve um profundo arrependimento dos males que fizera (Sl 51). Sempre tenha em mente isso a cada momento em que você for confrontado pela verdade, ou você prefere viver aprisionado pelas mentiras que o cercam?

Algo a ser considerado sobre a verdade é a sua unicidade. Por mais que existam pessoas com várias opiniões e diferentes pontos de vista, a verdade será apenas única e universal independente se você acreditar ou não. E de todas as verdades existe uma (não estas citadas anteriormente e nem as filosóficas) que realmente liberta (Jo 8.32,36). Não apenas da ignorância, mas dessas nossas características citadas logo no início do texto (Jo 8.35). Antes disso, gostaria de esclarecer um ponto acerca do cristianismo. O grande conflito existente entre o cristianismo e as religiões consiste basicamente na verdade primordial de nossa existência. Cristo afirmou que Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida e que ninguém vai ao Pai, senão por Ele (Jo 14.6). Pois bem, existe um detalhe nesta afirmação, porém de extrema importância e que exprime essa questão do conflito do cristianismo com as religiões, a saber, a definição dos artigos usados. Se Ele tivesse dito ao invés dessa declaração, usando artigos indefinidos, que Ele é um Caminho, uma Verdade e uma Vida, nós poderíamos acreditar na concepção errônea de que basta apenas escolhermos uma religião de nosso gosto e que tudo está certo, afinal Ele é apenas um meio dentre vários outros de sermos salvos. Se esse pensamento fosse correto, pronto, as pessoas que possuem outros credos não teriam tantos problemas com o cristianismo. Infelizmente, muitas pessoas compartilham dessa ideia, inclusive no meio cristão e isso é um grave erro sem falar que é totalmente antibíblico. Por mais que possamos tentar ser demagogos, nunca podemos deixar de ser fiéis à mensagem do Reino de Deus que exprime de todas as maneiras plausíveis, desde a Lei e os Profetas até a Nova Aliança (que apesar do nome é uma confirmação da Antiga Aliança e não uma substituição desta (Mt 5.17), mas isso será assunto para outro diálogo) que Cristo é o único Caminho, a única Verdade e a única Vida. Ele é a única Verdade que nos liberta da nossa miserável natureza que tentamos esconder.

Devemos ter a humildade de ouvir a verdade, mesmo que não nos agrade e ainda ter o amor para falar a verdade, não julgando ou criticando, mas com intuito de ver as pessoas que amamos vivendo à luz da Verdade. E sem esquecer, claro, que infinitamente mais do que pronunciar a Verdade, devemos viver a Verdade.

“A coisa engraçada sobre a verdade é que ela é ... verdade, você acreditando ou não.”