Se existe algo que não gostamos de ouvir é exatamente isso,
“verdades”, já parou pra observar? E por mais que rejeitemos essa ideia
sabemos, no íntimo do nosso ser, que é a mais pura verdade. Muitas vezes somos
tão hipócritas em dizer que gostamos de sinceridade e da verdade, que desejamos
que as pessoas sejam sinceras, mas isso só nos interessa quando o que as
pessoas tem a nos dizer é algo que serve para ufanar os nossos corações, seja
por meio de elogios ou palavras que demonstrem o quanto somos importantes e
necessários, o quanto somos amados. Não importam quão fúteis e tolas sejam
essas palavras, mas que elas venham para satisfazer o nosso ego. Mas e quando a
verdade é algo que produz tristeza e luto em nossos corações? Quando ela revela
a nossa natureza, quem nós somos de fato, nossos defeitos, a começar por nosso
orgulho. Pois, o maior empecilho em aceitar a verdade é o próprio orgulho. O
orgulho e a vergonha nos aprisionam fazendo-nos viver em densas trevas, não
permitindo que vivamos iluminados à luz da verdade.
É como se você estivesse num quarto escuro e devido a essa
escuridão você pudesse fazer o que lhe der vontade, pois afinal de contas, ninguém poderá ver o que você está fazendo, você sente uma espécie de pseudo-liberdade.
Mas de repente, alguém liga o interruptor da lâmpada fazendo com que
instantaneamente tudo o que você está fazendo escondido pelas trevas venha à
tona sendo revelado pela luz da verdade. E neste momento você se sente tão
envergonhado que você anseia voltar às trevas, afim de que possa se esconder.
Penso que tenha sido esse o sentimento de nossos primeiros pais ao serem
defrontados diante da revelação de suas desobediências (Gn 3.8). Nessa
situação, a ideia de se esconder aparenta ser mais atraente do que a ideia de
reconhecer o ato que o envergonha e mudar de atitude. Outras vezes, no entanto,
acabamos por assumir uma postura de antipatia com as pessoas que nos admoestam
com a verdade e por vezes chegamos ao ponto de sermos até grossos com tais
pessoas. Você acha familiares esses pensamentos: “O que ele tem a ver com a
minha vida?”, “Quem ele pensa que é pra me julgar?”; “Ele devia cuidar de sua
vida que da minha cuido eu.”? E nem nos damos conta que acabamos fugindo de um
grande ensinamento bíblico que diz que é melhor ouvir a repreensão do sábio do
que a canção (no sentido de aprovação, aplausos) dos tolos (Ec 7.5).
Já imaginou o que teria acontecido se nossos primeiros pais
tivessem tido uma atitude diferente? Agora, diante deste pensamento que você
está tendo, que provavelmente seja um: “Nossa, aí as coisas seriam diferentes.
Seriam bem melhores!”, imagine o que pode acontecer em sua vida se você tomar
uma atitude que não seja semelhante às deles. Davi, por exemplo, quando foi
confrontado por Natã (2 Sm 12.9) diante do seu grave crime (2 Sm 11.3-17) não
teve a atitude de tentar esconder o que fez e muito menos de deixar o seu
orgulho aflorar e mandar executar Natã (algo que outros reis fizeram quando
confrontados por profetas). Muito pelo contrário, não somente reconheceu o seu
crime (2 Sm 12.13) mas teve um profundo arrependimento dos males que fizera (Sl
51). Sempre tenha em mente isso a cada momento em que você for confrontado pela
verdade, ou você prefere viver aprisionado pelas mentiras que o cercam?
Algo a ser considerado sobre a verdade é a sua unicidade. Por
mais que existam pessoas com várias opiniões e diferentes pontos de vista, a
verdade será apenas única e universal independente se você acreditar ou não. E
de todas as verdades existe uma (não estas citadas anteriormente e nem as
filosóficas) que realmente liberta (Jo 8.32,36). Não apenas da ignorância, mas
dessas nossas características citadas logo no início do texto (Jo 8.35). Antes
disso, gostaria de esclarecer um ponto acerca do cristianismo. O grande conflito
existente entre o cristianismo e as religiões consiste basicamente na verdade
primordial de nossa existência. Cristo afirmou que Ele é o Caminho, a Verdade e
a Vida e que ninguém vai ao Pai, senão por Ele (Jo 14.6). Pois bem, existe um
detalhe nesta afirmação, porém de extrema importância e que exprime essa
questão do conflito do cristianismo com as religiões, a saber, a definição dos
artigos usados. Se Ele tivesse dito ao invés dessa declaração, usando artigos
indefinidos, que Ele é um Caminho, uma Verdade e uma Vida, nós poderíamos
acreditar na concepção errônea de que basta apenas escolhermos uma religião de
nosso gosto e que tudo está certo, afinal Ele é apenas um meio dentre vários
outros de sermos salvos. Se esse pensamento fosse correto, pronto, as pessoas
que possuem outros credos não teriam tantos problemas com o cristianismo. Infelizmente, muitas
pessoas compartilham dessa ideia, inclusive no meio cristão e isso é um grave
erro sem falar que é totalmente antibíblico. Por mais que possamos tentar ser
demagogos, nunca podemos deixar de ser fiéis à mensagem do Reino de Deus que
exprime de todas as maneiras plausíveis, desde a Lei e os Profetas até a Nova
Aliança (que apesar do nome é uma confirmação da Antiga Aliança e não uma substituição
desta (Mt 5.17), mas isso será assunto para outro diálogo) que Cristo é o único
Caminho, a única Verdade e a única Vida. Ele é a única Verdade que nos liberta
da nossa miserável natureza que tentamos esconder.
Devemos ter a humildade de ouvir a verdade, mesmo que não
nos agrade e ainda ter o amor para falar a verdade, não julgando ou criticando,
mas com intuito de ver as pessoas que amamos vivendo à luz da Verdade. E sem
esquecer, claro, que infinitamente mais do que pronunciar a Verdade, devemos
viver a Verdade.
