quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Acerca da natureza do homem (Parte I)


O que é o Evangelho?

Para que você possa compreender o que realmente é o Evangelho é necessário saber o que as Escrituras falam acerca da natureza do homem (parte I), da natureza de Deus (parte II) e a mensagem da cruz junto com a doutrina da salvação (parte III).

A primeira coisa a ser abordada antes de tudo é a respeito da natureza do homem. O que as Escrituras falam sobre a humanidade. Estou colocando as referências para você buscar até por aqui mesmo numa bíblia online e ver se realmente está no contexto do que estou lhe falando.
Acredito que uma das melhores explicações é encontrada na carta de Paulo aos romanos, nos três primeiros capítulos. E o que ele fala é de deixar qualquer um deprimido. Lá diz que todos nós pecamos e por isso estamos destituídos da glória de Deus (Rm 3.23). Bom há muita coisa a ser considerada aqui. Na verdade esse versículo é uma espécie de conclusão do que ele tem mostrado em sua carta nos capítulos 1 e 2. Ele fala tanto de judeus (que são o povo escolhido de Deus, pois descendem de Abraão) como de gentios (que são pessoas não pertencentes à herança de Israel), fala de todas as maneiras e explica que não há um justo sequer (Rm 3.10). E depois de explanar a ideia de que não existe nem uma pessoa justa sequer, ele ainda conclui ‘Pois todos pecaram’. Ele não faz distinção de nenhum ser sequer, nem mesmo Moisés, nem Davi, Isaías e grandes profetas do passado, nem de Maria e nem dele mesmo. E ele não faz isso porque ele é uma pessoa humilde, não. Ele diz isso porque ele sabia que a natureza humana não é uma natureza boa. Somos todos nós egoístas, mesquinhos, nojentos, asquerosos. Não pode sair nada de bom do homem. Nós, em nossa essência somos inimigos de Deus (Rm 5.10). O que esta passagem nos ensina é que o homem, sem Cristo, em sua essência é inimigo de Deus, ele odeia a Deus e quer fazer tudo o que Deus abomina. Isto é a melhor explicação que há para existirem tanta guerra, tanta imoralidade e tantos outros males. Pois a verdade é que gostamos disso, isso está na nossa natureza e não podemos fugir disso.


Ele continua explanando essa ideia no decorrer do capítulo 3, usando passagens do antigo testamento. Ele declara que nossa boca é cheia maldição e amargura (Sl 10.7), que nossos pés são ligeiros para derramar sangue (Is 59.7). Muitas pessoas podem pensar que isso não é verdade, que nós não temos espírito assassino, mas o que ocorre é que não fazemos de fato por medo das consequências que podem ocorrer e nos prejudicar. Mas para entender melhor essa questão vamos imaginar que fora nos dado todo o poder sobre o mundo e podemos fazer tudo o que queremos que nada seria proibido ou errado e tudo seria acatado. Poderíamos até pensar que não faríamos nada. Mas vamos dar uma eternidade para nossa vida e sempre com a mentalidade de que não existe nada de errado nas nossas escolhas, podemos matar uma pessoa e isso não seria pecado ou existisse alguma penalidade para isso. Pois bem o que as Escrituras diz é que nós na nossa essência e livre de qualquer peso na consciência somos ligeiros para derramar sangue. E isto se torna um fato, quando olhamos na história reis da era medieval que mandava matar pessoas quando bem lhe entendessem por apenas diversão. Paulo continua dizendo que não há temor de Deus diante dos nossos olhos (Sl 36.1). Muitos de nós repudiamos o terceiro Reich e tudo o que Hitler e os nazistas fizeram aos judeus, mas a verdade é que nós somos iguais a Hitler. Hitler é a amostra da essência do que nós somos. Na mentalidade deles, eles não fizeram nada de errado, pois acreditavam que os judeus não fossem humanos, mas sim uma espécie entre o homem e o chimpanzé. Eles até comparavam as semelhanças entre os judeus e chimpanzés.


Mas em contraposição podemos citar vários exemplos bons, como Gandhi, madre Teresa, e tantas outras pessoas que fazem o bem. E também pessoas que são boas e que ainda assim não acreditam em Deus. O que Paulo está traçando neste verso é a natureza intrínseca do homem, não apenas regras de boa conduta e de ética, não apenas o que fazemos que os outros veem. Mas o que está no nosso interior, no nosso íntimo, e Deus conhece o nosso interior e por isso declara tanto pelos profetas como por Paulo que somos miseráveis. Pensamos que por nossas obras podemos agradar a Deus, mas não podemos, porque todos nós somos imundos e as melhores coisas que fazemos são trapos de imundícia para Deus (Is 64.6). Seria como crianças que são desobedientes, mimadas e só fazem o que aborrece os pais, e pensam que podem se achar bons só por escrever num papel sujo, cheio de porqueira e escrito de qualquer jeito: Pai, ti amam... e nem sequer escrevem direito. E com isso pensam que fizeram grande coisa. Quando na verdade isso é trapo de imundice, pois afinal de contas é esta a nossa essência. Não podemos nos desvencilhar disso. O homem por si só não pode mudar sua natureza, não com suas obras e mesmo tentando como toda a sua força de vontade, pois é isso que somos: criaturas débeis e carentes da glória de Deus. E o que vemos é sempre uma tentativa frustrada e fracassada de tentar chegar a Deus pelas suas próprias. Daí pode-se ter uma ideia do por que existem várias religiões e inúmeras crenças. Os homens trocaram a verdade de Deus pelas suas próprias mentiras preferindo adorar seres criados de sua própria invenção do que a Deus (Rm 1.25).
E porque Paulo fala que estamos destituídos da glória de Deus? Por que mudamos a glória de Deus que é incorruptível em semelhança da imagem de homem que é incorruptível bem como de aves, quadrúpedes e répteis (Rm 1.23, 2 Rs 17.29). É só olhar para as religiões, o que elas ensinam a adorar? Vacas, animais, homens que tiveram uma vida boa, e até mesmo uma interpretação humana do que seria o próprio Deus. O que Paulo estava descrevendo era algo que acontecia naquela época, na época de Moisés e que acontece hoje e sempre vai acontecer pois esta é a natureza do homem, não é uma questão de época, de corrente filosófica passageira. É algo inerente a nós. Trocam a verdade de Deus dizendo, que o importante é ser bom, que é só escrevermos um bilhete de qualquer jeito que tudo vai ficar bem. Que cada um pode acreditar no que quiser e no final todos serão salvos. Mas, a ira de Deus é revelada aos homens que suprimem a verdade pela injustiça (Rm 1.18).

A compreensão disso é de total importância para entendermos o propósito de Deus para nos salvar. Pois muitas pessoas apenas afirmam que somos pecadores e pronto. Não é só isso. Nós somos podres, miseráveis, repugnantes, inimigos de Deus e é por isso que gostamos do mal, gostamos de adultério, prostituição, impureza, idolatria, inimizades, iras, guerras, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias (Gl 19.21). Podemos até não fazer em determinadas circunstâncias, mas é isso que nos atrai e agrada o nosso interior, justamente porque essas coisas são abominações pra Deus.

Se não entendermos isso, nunca compreenderemos o propósito de Cristo. Só para ilustrar a situação, se você ouvir uma barulho de uma chave isso em nada afetará você. Mas para uma pessoa que já passou 50 anos, trancada num calabouço sujo, fétido, úmido, sem nunca ter contado com a luz do sol, o barulho de uma chave terá um sentido totalmente diferente para ele. É por isso que para entender o que Cristo fez, precisamos antes entender a situação na qual nos encontramos. Cristo declara isso de uma maneira bastante sábia, ele usa a figura da função de um médico. O médico só tem serventia para pessoas que estão enfermas. Uma pessoa sã não vê necessidade de um médico e por isso o médico não tem serventia para ela. Da mesma maneira, Cristo declara que Ele veio para os pecadores e não para justos (Mc 2.17). Quando Ele disse isso, Ele disse aos fariseus que eram hipócritas religiosos da época que estavam julgando Jesus por andar com pecadores. Daí pode-se tirar um ensinamento errôneo, pois isso pode ser usado como margem para dizer que pode existir sim homens justos. Na verdade Cristo estava confirmando a ideia de que Ele não veio para aqueles que pensam que são justos, bons como os fariseus se declaravam. Eles se autodeclaravam cumpridores de todos os mandamentos de Deus e por isso seriam dignos de serem salvos e diante da sociedade eles pareciam ser boas pessoas. Mas Cristo conhecia os seus corações e sabia que eles eram podres e imundos por dentro e assim proferiu esta declaração contra testemunho aos fariseus. Cristo veio aos pecadores, necessitados e só podem ser salvos aqueles que reconhecem isso. Enquanto aos que se dizem ou pensam que são ‘justos’, só lhes restam a condenação e a ira de Deus, pois na verdade não existe um justo sequer. E mais uma vez você vê que as Escrituras não entram em contradição.

No Antigo Testamento no livro de Deuteronômio você encontra normas e condutas dada por Deus a Moisés. Se alguém conseguisse cumprir todas essas normas, esse sim seria justo e poderia ser salvo pela sua obra. Quando Paulo declarou que não há um justo sequer quis dizer que não houve nenhuma pessoa no mundo, nenhum homem ou mulher que tivesse cumprido seja Gandhi, madre Teresa, ele mesmo Paulo, Moisés, Maria mãe de Jesus, exatamente ninguém. Bom, então poderíamos nos perguntar por que Deus estipulou algo que Ele sabia que não poderíamos cumprir. Isso é uma ótima pergunta. E a resposta está em Mateus 5.17. “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir.” O único que conseguiu cumprir exatamente tudo que está escrito em Deuteronômio milimetricamente foi Cristo, para que a humanidade percebesse que algo que fora escrito a milhares de anos fosse com perfeição cumprida por Jesus e cressem nEle. (mas isto também será falado mais detalhadamente em outro momento).

Você consegue perceber que as referências que eu usei só para falar sobre a natureza humana não foi de apenas um livro, ou por uma pessoa ( e ainda porque estou esquecendo de outras referências). Quando comecei a estudar as Escrituras, comecei a ficar pasmo, pois observamos que há diversidade do estilo literário indicando que fora escrita por pessoas distintas, além da arqueologia comprovar que os manuscritos são de épocas diferentes. E ainda assim, elas combinam como se fosse escrita por uma única Pessoa. E este é mais um motivo pelo qual eu creio que as Escrituras foram inspiradas pelo Espírito de Deus, o outro motivo falarei num outro momento. Eu tive o cuidado de não apenas mostrar um verso e interpretá-lo, mas sim de mostrar a você o contexto ao qual esse verso está inserido e fazendo uso de outras passagens que também confirmam que aquilo que fora dito é daquela maneira. Pois ainda hoje existem pessoas que trocam a verdade de Deus pegando um verso solto e dando a interpretação que lhe apraz, mas isto já era esperado, pois afinal de contas o homem troca a verdade de Deus pela sua mentira. Ainda assim é altamente recomendado que você releia estas passagens e veja no contexto ao qual está inserido.

Uma última consideração a ser feita é que por causa dessa nossa natureza nunca poderíamos nos relacionar com Deus, nunca poderíamos estar com Ele vivendo na sua glória. E a única coisa inevitável que nos aconteça e que merecemos é receber a ira de Deus, pois somos filhos da desobediência (Cl 3.6). No próximo post, estarei lhe falando sobre a natureza de Deus que infelizmente é ainda hoje pouco compreendida por muitos.

Acerca da natureza de Deus (Parte II)


A segunda coisa a entender, conforme mencionei anteriormente é a respeito da natureza de Deus. Muitas pessoas pensam que conhecem a Deus e a seus pensamentos, idealizando-O apenas com um Ser supremo em bondade, amor e outros atributos a mais. Mas a primeira constatação de uma pessoa que começa a conhecer a Deus é a de que não temos como entender completamente a mentalidade de Deus. O porquê  disso é o que está mencionado no post anterior. Então, mais uma vez (como de praxe) devemos buscar entender o que as Escrituras dizem, pois elas foram escritas por homens que tiveram inspiração pelo Espírito dEle (2 Tm 3.16) e o único que pode conhecê-Lo é o seu próprio Espírito, pois assim como o espírito do homem conhece o homem, assim o Espírito de Deus conhece a Deus e Ele nos revela as coisas a respeito de Deus (1 Co 2.11). Esta é a única maneira de conhecermos ao Pai. Agora gostaria de salientar alguns atributos de Deus para que possamos ter uma noção do caráter dEle e como consequência o resultado do nosso relacionamento (tendo em vista nossa natureza mencionada anteriormente) para com Ele.

O primeiro atributo é a respeito de Sua Santidade. Deus é Santo. Mas o que isso realmente quer dizer? Isso não significa apenas que Ele é um Ser bom e nunca faz nada de errado. Essa implicação vai mais além. Ele não somente não comete o que é impuro, mas Ele abomina tudo aquilo que é contrário à Sua natureza santa. Até aqueles que justificam os ímpios é abominação para o Senhor (Pv 17.15). Ele não tem prazer na inquidade nem em nenhum momento pode permanecer com a Sua Glória no meio do pecado (Sl 5.4). A questão é que o Senhor não simplesmente não tolera o pecado, mas Ele abomina e se enfurece com tudo o que é pecado e contra aqueles que o praticam. Nas Escrituras são encontradas várias vezes a palavra 'ira' dando menção à ira de Deus para com aqueles que praticam o que é mau (Dt 9.7; Js 22.20; Jz 2.20; 2 Sm 6.7; 1 Rs 14.15; 2 Cr 28.11). Muitas pessoas tem a concepção errônea de que quando pecamos estamos fazendo Deus triste. Isso é um grande engano. O que estamos fazendo na verdade é enchendo o cálice da ira de Deus sobre nossas vidas e só aguardando para que Ele derrame o cálice de sua ira no último Dia (Ap 14.10). E outra, Deus é Deus, Ele não deixará de ser Deus mesmo que toda a humanidade prevaricasse contra a Sua Palavra e deixasse de seguir a Sua vontade. Percebe que Santidade, vai bem mais além do que apenas não cometer impiedade. Santidade, embora muitas pessoas vejam essa terminologia como algo religioso, na verdade só significa ‘separação’. Uma pessoa santa nada mais é do que uma pessoa separada para algum fim ou propósito. E Deus é Santo por que Ele é totalmente separado para o Seu próprio propósito, que é totalmente diferente da natureza humana. E todos aqueles que são separados para o propósito de Deus, estes também recebem essa terminologia de ‘santo’. Se Deus é separado para o seu próprio propósito, como podemos confiar que este propósito seja bom?

Esta pergunta nos leva a outro atributo de Deus. Ele é Justo (Sl 11.7). Para existir alguém que tenha capacidade de contradizer isso, essa tal pessoa precisa antes de tudo ter a capacidade de ter uma justiça superior à do Senhor para que pelo menos possa instruí-lo. E quem foi que conheceu a mente do Senhor para que possa instruí-lo? (Is 40.13). Se nós sendo injustos aos nossos próprios olhos e imensamente injustos aos olhos de Deus, como podemos declarar falsa a Sua justiça. E uma consequência disso é que Ele não pode negar a si mesmo, em nenhum momento, pois daí não haveria equidade no seu juízo. E em nenhum momento pode cometer injustiça. E é aí que nós nos encrencamos. Pois pela Sua santidade, o Senhor odeia o pecado e todos os que praticam o pecado. Há uma frase comum que diz que Deus odeia o pecado, mas ama o pecador. Isto não é algo que está descrito nas Escrituras, tanto que conforme já mencionado Ele abomina aquele que justifica os ímpios e pecadores. E como Ele é Justo, e não pode negar a si mesmo, Ele precisa fazer justiça e derramar o cálice de Sua ira sobre os filhos da desobediência (Cl 3.6). E Ele não pode perdoar, pois isso seria contrário à Sua justiça e, portanto Ele negaria a si mesmo e logo deixaria de ser Deus.

Para entender esta questão, vamos à seguinte ilustração. Um indivíduo entra em sua casa e não somente violenta a sua filha e esposa, como também assassina elas friamente torturando-as até a morte. E este indivíduo é preso e levado ao julgamento. No tribunal todas as provas apontam para a condenação deste indivíduo. E o juiz ao declarar a sentença profere as seguintes palavras: ‘Realmente é incontestável, diante de todas as provas apresentadas, negar que você não cometeu tal crime. Todos aqui no recinto reconhecem que você é o assassino destas duas vítimas. No entanto, como eu sou um juiz misericordioso e amoroso, eu irei absolvê-lo. Você está livre, pode ir embora’. Você ficaria perplexo, para dizer pouco. Você nunca veria isso como justiça. Você ligaria para todas as autoridades competentes e denunciaria este juiz, pela sua falta de justiça e nunca mais você confiaria neste juiz para julgar qualquer coisa. Este juiz perderia a sua total credibilidade diante de você e da sociedade.

Pois bem, é mais ou menos dessa maneira que Deus não pode nos perdoar e por isso precisamos ser condenados a tomar o cálice de Sua ira. Existem pessoas que aderem à filosofia de que Deus não pode nos condenar por que Deus é amor. Isso mostra total falta de conhecimento acerca dos atributos e do caráter de Deus. É exatamente porque Deus é amor que Ele precisa manifestar a Sua ira. Para entender isso, vamos colocar dessa maneira. Toda pessoa que ama bebês, ela igualmente odeia aborto. Se uma pessoa ama judeus, ela definitivamente irá odiar holocaustos. Se você realmente ama alguma coisa, você irá odiar com a mesma intensidade tudo aquilo que é contrário ou que denigre aquilo que você ama. Pois bem, Deus ama imensamente o que é justo, o que é santo e todo ser que ama essas coisas e por este motivo, com a mesma intensidade de Seu amor por estas coisas, que Ele odeia a injustiça, a prevaricação e todos aqueles que praticam ou amam essas coisas.

Então chegamos a um grande impasse. Não somente devemos ficar afastados de Deus e de Sua Glória como merecemos receber a Sua ira santa. É difícil associar a ideia de ira com algo santo, mas é exatamente por que a ira é voltada para tudo que é contrário à santidade de Deus que torna a Sua ira uma ira santa. Mais uma vez, não podemos confundir a ira de Deus com a ira dos sentimentos dos homens. E nenhuma religião poderia nos livrar dessa ira, nenhuma.

Chegamos agora em um grande divisor de águas. O que pode levar a muitas pessoas a reconhecer o maior erro das Escrituras e perceber que tudo não passa de um grande ensaio literário tão complexo que acabaram esquecendo o ponto central da filosofia deste livro. E isso culminaria na apostasia de muitas pessoas. Se é mencionado em Provérbios 17.15 que abominação para Senhor é aquele que justifica o ímpio, como as Escrituras declaram que nós somos justificados (Rm 5.9)? Colocando isso em outros termos: Se Deus não pode perdoar ninguém, pois Ele precisa ser Justo, como as Escrituras declaram que somos perdoados? Ou ainda de uma forma mais sintética: Como Deus pode ser Justo e Justificador ao mesmo tempo, e ainda sem negar a Si mesmo? É neste ponto que muitos ateus podem se apegar para mostrar a falibilidade das Escrituras.


Mas o que parece ser o grande erro da doutrina bíblica é exatamente o cerne da mensagem de todas as Escrituras, desde Gênesis a Apocalipse. A resposta desta questão é metaforicamente e literalmente o centro de tudo e de todo o universo. O Único que poderia fazer de Deus Justo e Justificador é o Seu próprio Filho, nosso Senhor, Jesus Cristo. Agora como Ele fez isso, está detalhado no post seguinte. Pois o propósito do Messias e de que maneira somos reconciliados com Deus são outras coisas que são mal compreendidas por muitas pessoas.

Acerca da mensagem da cruz e da doutrina da Graça (Parte III)



Bom, gostaria de completar esta trilogia acerca do Evangelho, falando a respeito do real significado do sacrifício de Jesus Cristo e a acerca da doutrina da Graça estabelecida nas Escrituras.
Bom, a visão que a maioria das pessoas possuem é de que Jesus foi um homem bom, um profeta e que foi traído, totalmente enganado por Judas e acabou fracassando em seu ministério sendo crucificado pelo romanos. Isto é um grande erro, pois em várias passagens ele deixa bem claro que ia ser traído (Mt 26. 21-23; Mc 14.18), que para o lugar onde Ele ia ninguém podia ir junto (Jo 8.21), que o cálice que Ele ia beber ninguém podia tomá-lo também (Mt 20.22). E neste último caso vemos a concordância sistemática das Escrituras, pois Ele estava se referindo ao cálice da ira do Pai que seria derramado sobre Ele e na noite antes de ser traído Ele orou ao Pai para que se possível fosse afastado este cálice, mas antes Ele disse que não fosse feita a sua vontade, mas a vontade do Pai (Lc 22.42). E mesmo subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. (Fp 2.6-8).

É necessário fazer duas considerações a respeito do sacrifício de Jesus. Um de aspecto físico e outro de natureza espiritual. Acerca do aspecto físico, uma morte na cruz não é algo bem-vinda para a sociedade daquela época, não apenas por ser cruel, mas porque essa condenação era dada apenas aos seres mais hediondos que pudesse imaginar e isso gera muita repercussão quando os discípulos começam a pregar que o seu mestre foi crucificado, pois se Ele era uma pessoa vinda de Deus, nunca poderia ter sido condenado à cruz. Nem em uma conversa era permitido mencionar o nome cruz, pois isso era símbolo de vergonha e desgraça. Hoje vemos muitas pessoas usando símbolos de cruz e nem se dão conta que este símbolo representa o que Jesus teve que passar por causa dos nossos pecados.  Pois Ele mesmo sendo justo, não tendo falhado em nada na Lei de Moisés (como já mencionei anteriormente) se tornou maldito, por que está escrito: “Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” (Dt 21.23) e Ele se fez maldição por nós (Gl 3.13). É por isso que Paulo fala que a mensagem da cruz é loucura (1 Co 1.18) para o mundo, pois para eles era inconcebível a ideia de um messias que fosse morto numa condenação que era dada à escória da sociedade.

Passo agora a meditar sobre a natureza espiritual do sacrifício de Jesus. Sem querer desmerecer o sofrimento físico de Jesus, mas se pensamos que só no fato dEle ter morrido na cruz os nossos pecados foram pagos, e ficarmos só nisto, cometemos um grave engano. Ele precisava morrer na cruz para que a Lei e os Profetas se cumprissem exatamente como fora descrito e para que a humanidade pudesse entender que Ele é o Cristo, o Filho do Deus vivo. O melhor texto para entender o verdadeiro sacrifício de Jesus Cristo se encontra em uma das passagens mais fortes das Escrituras, Isaías 53. Seria muito bom se lesse esse capítulo com bastante calma e pedisse à Deus (se Ele realmente existe) para que lhe dê entendimento. Este capítulo, é o mais próximo que podemos chegar da compreensão do que realmente aconteceu com Cristo.  No começo do capítulo fala que não víamos beleza nEle, que não o desejaríamos, que Ele era desprezado, homem de dores, rejeitado e que não fizemos caso dEle. Que sobre Ele foi colocado TODAS as nossas enfermidades (imagina uma pessoa carregar todas as enfermidades da humanidade) e que carregou as nossas dores e que o próprio Deus feriu Ele (Is 53.4). Mas Ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e esmagado por causa das nossas iniquidades. O castigo que era a única maneira de nos trazer a paz estava sobre Ele e pelas pisaduras (seu sofrimento) é que fomos sarados. Foi da vontade de Deus esmagar Ele (Is 53.10), o próprio Pai esmagou o Filho e não os romanos. O que vemos aqui é que depois dEle ter sofrido nas mãos dos romanos, Ele sofreu nas mãos do próprio Pai. O castigo, a condenação à ira de Deus que estava destinada a nós por causa dos nossos pecados, dos nossos ascos, da nossa imundície profana foi destinada a Cristo. E Ele tanto sabia que ia ser traído por Judas como Ele também sabia o que ia acontecer e era por este motivo, por conhecer ao Pai melhor do que ninguém e sabendo que havia chegado o momento dEle beber o cálice da ira de Deus que se angustiou muito, chegando a suar como gotas de sangue de tão angustiado que Ele estava (Lc 22.44). A agonia dEle não era porque ia morrer na cruz, pois muitos do seus seguidores, anos mais tarde, quando eram mortos ou crucificados se alegravam por se acharem dignos de morrer por causa do evangelho e até Paulo afirmou que o viver dele é Cristo e o morrer é lucro (Fp 1.21). Então como é que os seguidores dEle não se angustiavam com a morte e o próprio Cristo pediu para que o Pai livrasse Ele da morte?? Isso não faz sentido. O real motivo da agonia de Cristo é que Ele sabia o que aconteceria depois. Ele iria ser esmagado pelo próprio Pai e ninguém conhecia a Deus como o próprio Cristo, então Ele sabia que o que ia acontecer não era brincadeira. Imagine a infinidade do amor, da sabedoria, do poder de Deus. Agora imagine a infinidade da ira dEle. E não é porque Jesus era Filho dEle que Deus ia amenizar pra Ele. O Pai condenou ao nosso Senhor a mesma condenação que está destinada a Satanás, seus anjos e todos aqueles que vivem na impiedade. E é isso que me deixa totalmente constrangido. Nenhum de nós gostaria de machucar nossos filhos e isso porque muitas vezes eles são desobedientes. E o Pai moeu o próprio Filho, e o Filho perfeito que não pudesse haver uma queixa sequer do Pai, pois o Pai disse: “ – Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17). E tão somente o fez sofrer um castigo da mesma intensidade que estava destinado àqueles que são inimigos dEle mesmo (Rm 5.10) e se não bastasse, fez isso para salvar estes. Mas por que Deus fez isso? Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3.16). Cristo nos amou, incondicionalmente sem que mereçamos e este amor nos constrange, pois se um morreu por todos, logo todos morreram (2 Co 5.14). E desta maneira foi feita a justiça de Deus, pois se morremos com Cristo, logo fomos justificados. O sangue dEle limpou nossas vestes. Fomos purificados pelo sangue do Cordeiro.

Mas o sacrifício de Cristo não teria valor se Ele não tivesse ressuscitado, pois foi na sua ressurreição que Ele subiu aos céus, visto pelos seus discípulos, como testemunhas oculares e agora Ele está à destra do Pai  e o Pai o exaltou acima de todos e lhe deu o nome que é acima de todo o nome. Ele reina soberanamente e nos revestiu de poder e autoridade para no lugar de inimigos passarmos a ser chamados de filhos de Deus (1 Jo 3.1).  E o que nós, hoje temos a ver com isso?

Esta é a pergunta fundamental do cerne do Evangelho. A resposta está justamente relacionada com a segunda parte desta conversa, a doutrina da Graça. Esta se contrapõe com a doutrina da letra da Lei, que para uma pessoa ser justa e assim ser salva ela precisa obedecer toda a Lei que está descrita no Pentateuco (se lembra?). E Paulo disse que não há um justo sequer, portanto por mais que nos esforcemos nunca vamos conseguir. Na doutrina da Graça, a coisa é bem diferente e ainda bem! Não precisamos seguir a Lei, porque Cristo já cumpriu a Lei. Nós somos salvos pela Graça, que significa que Deus deu algo para nós voluntariamente e que não merecemos. E como funciona essa salvação?

Depois que Cristo subiu, Ele enviou o Espírito Santo que prometera (Jo 17.6). E a função desse Consolador seria de convencer o mundo do pecado, da justiça e do juízo (Jo 17.7). É somente através do Espírito de Deus agindo em nossas vidas que podemos perceber os quão miseráveis e carentes somos da glória de Deus. Sem Ele, vamos continuar pensando que somo bonzinhos e que podemos nos achegar diante de Deus pelo nosso próprio esforço. E é esse mesmo Espírito que transforma a nossa natureza para sermos livres da escravidão do pecado (Rm 6.14) e assim podermos caminhar rumo à perfeição em Cristo Jesus (Hb 6.1) até sermos perfeitos como perfeito é o nosso Pai celestial (Mt 5.48). O que na Lei isso seria impossível, nós conseguimos  através da Graça, através da transformação do Espírito Santo em nossas vidas, e isto não vem de nós, é dom de Deus (Ef 2.8).

O que muitas pessoas pensam acerca das Escrituras é que elas são uma regra de conduta que devemos seguir. Isto está errado, pois se assim fosse poderíamos nos gloriar em nós mesmos (Ef 2.9). E é exatamente isso que o Cristianismo difere de todas as religiões. A própria Escritura fala que se você tentar seguir tudo o que está escrito lá, você não terá êxito. Mas é o contrário. Somente uma pessoa que se arrepende dos seus pecados, tendo o Espírito de Deus mostrado a sua situação e esta pessoa tem o desejo de ser diferente do que ela é, uma pessoa que clama a Deus para que mude a sua natureza e que tem o Espírito de Deus é que terá uma vida que está descrita nas Escrituras. Esta é a prova mais concludente que Deus existe, o do seu agir na vida miserável do ser humano e a transformação que o Espírito opera em nossas vidas, escolhendo as coisas ignóbeis e desprezadas para reduzir a nada aqueles que se acham sábios e fortes (1 Co 1. 27-28).

Diante destas palavras os judeus perguntaram a Pedro o que eles tinham que fazer (At 2.37). E Pedro respondeu: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo” (At 2.38). E somente desta maneira é que eles puderam viver livres do pecado e da morte e aguardando esperançosamente o momento em que encontrariam novamente com o Rei da Glória, a mesma esperança que temos hoje, pois esta mensagem das Boas Novas, do Evangelho se espalhou até chegar a mim e agora sendo repassada a você. Pois Cristo nos disse: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28. 19-20).

sábado, 3 de março de 2012

Verdades


Se existe algo que não gostamos de ouvir é exatamente isso, “verdades”, já parou pra observar? E por mais que rejeitemos essa ideia sabemos, no íntimo do nosso ser, que é a mais pura verdade. Muitas vezes somos tão hipócritas em dizer que gostamos de sinceridade e da verdade, que desejamos que as pessoas sejam sinceras, mas isso só nos interessa quando o que as pessoas tem a nos dizer é algo que serve para ufanar os nossos corações, seja por meio de elogios ou palavras que demonstrem o quanto somos importantes e necessários, o quanto somos amados. Não importam quão fúteis e tolas sejam essas palavras, mas que elas venham para satisfazer o nosso ego. Mas e quando a verdade é algo que produz tristeza e luto em nossos corações? Quando ela revela a nossa natureza, quem nós somos de fato, nossos defeitos, a começar por nosso orgulho. Pois, o maior empecilho em aceitar a verdade é o próprio orgulho. O orgulho e a vergonha nos aprisionam fazendo-nos viver em densas trevas, não permitindo que vivamos iluminados à luz da verdade.

É como se você estivesse num quarto escuro e devido a essa escuridão você pudesse fazer o que lhe der vontade, pois afinal de contas, ninguém poderá ver o que você está fazendo, você sente uma espécie de pseudo-liberdade. Mas de repente, alguém liga o interruptor da lâmpada fazendo com que instantaneamente tudo o que você está fazendo escondido pelas trevas venha à tona sendo revelado pela luz da verdade. E neste momento você se sente tão envergonhado que você anseia voltar às trevas, afim de que possa se esconder. Penso que tenha sido esse o sentimento de nossos primeiros pais ao serem defrontados diante da revelação de suas desobediências (Gn 3.8). Nessa situação, a ideia de se esconder aparenta ser mais atraente do que a ideia de reconhecer o ato que o envergonha e mudar de atitude. Outras vezes, no entanto, acabamos por assumir uma postura de antipatia com as pessoas que nos admoestam com a verdade e por vezes chegamos ao ponto de sermos até grossos com tais pessoas. Você acha familiares esses pensamentos: “O que ele tem a ver com a minha vida?”, “Quem ele pensa que é pra me julgar?”; “Ele devia cuidar de sua vida que da minha cuido eu.”? E nem nos damos conta que acabamos fugindo de um grande ensinamento bíblico que diz que é melhor ouvir a repreensão do sábio do que a canção (no sentido de aprovação, aplausos) dos tolos (Ec 7.5).

Já imaginou o que teria acontecido se nossos primeiros pais tivessem tido uma atitude diferente? Agora, diante deste pensamento que você está tendo, que provavelmente seja um: “Nossa, aí as coisas seriam diferentes. Seriam bem melhores!”, imagine o que pode acontecer em sua vida se você tomar uma atitude que não seja semelhante às deles. Davi, por exemplo, quando foi confrontado por Natã (2 Sm 12.9) diante do seu grave crime (2 Sm 11.3-17) não teve a atitude de tentar esconder o que fez e muito menos de deixar o seu orgulho aflorar e mandar executar Natã (algo que outros reis fizeram quando confrontados por profetas). Muito pelo contrário, não somente reconheceu o seu crime (2 Sm 12.13) mas teve um profundo arrependimento dos males que fizera (Sl 51). Sempre tenha em mente isso a cada momento em que você for confrontado pela verdade, ou você prefere viver aprisionado pelas mentiras que o cercam?

Algo a ser considerado sobre a verdade é a sua unicidade. Por mais que existam pessoas com várias opiniões e diferentes pontos de vista, a verdade será apenas única e universal independente se você acreditar ou não. E de todas as verdades existe uma (não estas citadas anteriormente e nem as filosóficas) que realmente liberta (Jo 8.32,36). Não apenas da ignorância, mas dessas nossas características citadas logo no início do texto (Jo 8.35). Antes disso, gostaria de esclarecer um ponto acerca do cristianismo. O grande conflito existente entre o cristianismo e as religiões consiste basicamente na verdade primordial de nossa existência. Cristo afirmou que Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida e que ninguém vai ao Pai, senão por Ele (Jo 14.6). Pois bem, existe um detalhe nesta afirmação, porém de extrema importância e que exprime essa questão do conflito do cristianismo com as religiões, a saber, a definição dos artigos usados. Se Ele tivesse dito ao invés dessa declaração, usando artigos indefinidos, que Ele é um Caminho, uma Verdade e uma Vida, nós poderíamos acreditar na concepção errônea de que basta apenas escolhermos uma religião de nosso gosto e que tudo está certo, afinal Ele é apenas um meio dentre vários outros de sermos salvos. Se esse pensamento fosse correto, pronto, as pessoas que possuem outros credos não teriam tantos problemas com o cristianismo. Infelizmente, muitas pessoas compartilham dessa ideia, inclusive no meio cristão e isso é um grave erro sem falar que é totalmente antibíblico. Por mais que possamos tentar ser demagogos, nunca podemos deixar de ser fiéis à mensagem do Reino de Deus que exprime de todas as maneiras plausíveis, desde a Lei e os Profetas até a Nova Aliança (que apesar do nome é uma confirmação da Antiga Aliança e não uma substituição desta (Mt 5.17), mas isso será assunto para outro diálogo) que Cristo é o único Caminho, a única Verdade e a única Vida. Ele é a única Verdade que nos liberta da nossa miserável natureza que tentamos esconder.

Devemos ter a humildade de ouvir a verdade, mesmo que não nos agrade e ainda ter o amor para falar a verdade, não julgando ou criticando, mas com intuito de ver as pessoas que amamos vivendo à luz da Verdade. E sem esquecer, claro, que infinitamente mais do que pronunciar a Verdade, devemos viver a Verdade.

“A coisa engraçada sobre a verdade é que ela é ... verdade, você acreditando ou não.” 


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Primícias

Há muito tempo atrás numa terra distante... Um certo povo tinha o hábito de consagrar todos os seus primeiros frutos à Deus, seja na lavoura, no gado, nos negócios, geralmente coisas indispensáveis à manutenção de suas vidas, como também na família. Tudo o que eles obtinham em primeira mão não era para eles mesmos mas sim para Deus. Não era apenas um grupo da sociedade, era a nação inteira, isso era uma lei nacional. Já imaginou escrito na nossa constituição de 88: “Todas as primícias da união deverão ser consagradas ao Deus de nossos antepassados.”? Bizarro, não é? Pois (por incrível que pareça para a nossa sociedade contemporânea) para eles, bizarro seria uma nação que não tivesse por lei os preceitos e os ensinamentos do Senhor. Pois nesses ensinamentos era encontrada (e ainda é) uma sabedoria tão profunda e tão perscrutadora que até hoje nenhuma sabedoria humana poderia ser comparada (mas isso será assunto para outro diálogo). Mas as perguntas que não querem calar são: Tá, mas por que eles faziam isso? O que realmente significava isso? Eles faziam só porque alguém mandava? Perguntas, perguntas e mais perguntas... Já dizia o comercial do canal futura: Não são as respostas que movem o mundo, são as perguntas.

No entanto, antes de adentrarmos nos pormenores desta questão, permita-me lhe fazer as seguintes indagações: Imagine você recebendo uma notícia muito boa, seja a aprovação no vestibular, algo que você ganhou de grande valor para você, ou algo totalmente extraordinário que aconteceu em sua vida. Quem é a pessoa que você vai correndo para que ela seja a primeira pessoa a saber desse acontecimento tão espetacular em sua vida? Ou você fez algo de grande importância em sua vida, seja um quadro que você pintou, algum pensamento seu escrito, alguma fotografia ou algo que seja fruto de um talento que você possui, ou coisas afins.  Em quem você pensa: “Nossa, essa pessoa tem que ser a primeira a ver isso”? Pois bem, daí você tira que a ideia por detrás desta prática das primícias não está em tão desuso nos nossos dias. Esse povo via como forma de prestar homenagem, de honrar a Deus não dando apenas quaisquer frutos, mas dando os seus primeiros frutos, como forma de dizer: Senhor olha só minha primeira conquista, mas isso não será para mim e sim para o Senhor. O fato a ser considerado aqui não é o oferecimento de coisas materiais, mas sim a importância que Deus tinha na vida deles, mais ainda do que as suas próprias conquistas. Pois na cultura da época os animais, os frutos da lavoura tinham tanta importância para eles do que um galaxy, um ipad, um kinect ou até mesmo um C4 para nós hoje. Difícil de imaginar, né?

Falando nisso... E quanto a nós hoje em dia? Quem é a pessoa mais importante em nossas vidas? Não somente ao ponto de oferecermos as nossas primícias, mas também ao ponto de ser mais importante do que elas mesmas. Pois afinal das contas onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração (Mt 6.21). Parafraseando, só demonstramos claramente o nosso afeto naquilo que é realmente importante em nossas vidas. Deixe-me exemplificar da seguinte maneira. Quando éramos crianças que ganhávamos um presente que queríamos tanto, dificilmente outra coisa importava mais do que aquele presente. Todo o nosso afeto era dedicado àquele presente demonstrando o quão importante ele era para nós. E isso muitas vezes perdura até hoje quando adquirimos algo que é objeto de nosso desejo.  Dedicamos boa parte de nosso tempo ou da nossa atenção em torno disso. Seja algo material (eletrônicos, carros, dinheiro), ou uma prática (internet, jogos, curso, trabalho) ou uma pessoa (pais, filhos, amigos, namorados). Mas e onde fica Deus nesta história? Comece a se questionar sobre isso. O que tem sido mais importante do que Deus em minha vida? Procure ter o hábito frequente de examinar-se a si mesmo (pleonasmo literário) e veja se não tem alguma “primícia” do nosso século sendo mais importante do que Deus em sua vida e fazendo-lhe se afastar da fé (2 Co 13.5). É necessário salientar que essa “primícia” do nosso século muitas vezes difere do real significado apresentado no início do texto, pois grande parte das coisas que almejamos é totalmente dispensável à manutenção da nossa vida e boa parte uma mera futilidade.

Muitas ordens de grandeza mais importante do que buscar quaisquer primícias é buscar o Reino de Deus e Sua Justiça. É fazer dEle não somente o primeiro em sua vida mas também o seu universo.  Uma vez estando continuamente fazendo isso (eu disse continuamente) é que todas as coisas (indispensáveis à sua vida e não mera futilidade) serão acrescentadas em sua vida (Mt 6.33).

“Que ao amanhecer do sol, ao acordar, Ele seja o seu primeiro pensamento.”